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MINHA HISTÓRIA

​Houve um tempo em que eu acreditava que consciência era suficiente para evitar repetições.

Eu escolhi engravidar.
Desejei profundamente viver a maternidade.
Achei que estava preparada.

Mas foi na gestação que percebi que existem memórias muito mais profundas do que aquilo que a mente entende.

Antes mesmo de nascer, eu já carregava uma história. Minha mãe havia feito laqueadura e, naquela época, acreditava-se que não era possível engravidar depois disso. Ela descobriu minha gestação através de uma hemorragia. E, de alguma forma, essa experiência ficou registrada em mim como uma sensação silenciosa de não pertencimento, de rejeição, de ser uma vida improvável.

Durante muito tempo, eu não compreendia o impacto disso.

Até engravidar.

Mesmo sendo uma gestação desejada, eu comecei a sentir no meu corpo emoções e sensações muito parecidas com aquilo que minha mãe havia vivido. Foi como acessar memórias ancestrais que ainda existiam em mim.

E foi justamente nesse atravessamento que comecei a encontrar meu centro.

A maternidade não me levou apenas para o lugar de mãe.
Ela me levou para o lugar de mim mesma.

Foi ali que comecei a me tornar mais autêntica nas minhas escolhas. A colocar limites. A assumir responsabilidade pela minha experiência. A parar de terceirizar aquilo que eu sentia para opiniões externas, medos coletivos ou expectativas sociais.

Eu queria viver a minha experiência da forma que fazia sentido para mim.

No início, meu desejo era apenas ter um parto normal. Já acompanhava os estudos sobre o início da vida e entendia a importância do nascimento respeitoso. Então comecei a estudar mais profundamente sobre gestação, parto e maternidade.

Sem perceber, aquilo deixou de ser apenas curiosidade.

Vieram os livros. As formações. Os estudos sobre psicologia pré e perinatal. Os mergulhos sobre consciência, corpo, emoções, traumas intrauterinos e vinculação.

Quanto mais eu estudava, mais entendia que parto não era apenas um evento físico.

Era ancestral.
Emocional.
Espiritual.
Humano.

Meu desejo pelo parto natural me levou ao parto humanizado. Do humanizado ao domiciliar. E do domiciliar ao impensável para muitas pessoas: o parto autodirigido.

Não foi uma decisão impulsiva.
Foi uma construção profunda de escuta, estudo, preparação e confiança.

Quando essa possibilidade chegou até mim, meu corpo simplesmente reconheceu.

Procurei parteiras. Conversei. Estudei. Me preparei emocionalmente, fisicamente e espiritualmente para viver aquela experiência com consciência e responsabilidade.

E assim aconteceu.

Minha filha nasceu em casa.
Estávamos apenas eu, o pai dela e nosso cachorro.

Meu parto durou 2h44.

Foi intenso, íntimo, silencioso e profundamente transformador.

Não porque foi perfeito.
Mas porque foi verdadeiro.

Pela primeira vez, vivi algo sem terceirizar minhas escolhas.

E o nascimento dela também foi o meu.

Depois da maternidade, continuei aprofundando meus estudos através de formações em traumas intrauterinos, renascimento sistêmico, desenvolvimento infantil e parteiria tradicional, integrando saberes ancestrais, intuitivos e científicos.

E então compreendi algo que mudou tudo em mim:

Muitas dores começam antes da fala.
Antes das memórias conscientes.
Antes mesmo do nascimento.

Bebês sentem.
Corpos registram.
A gestação comunica.
O nascimento marca.

E foi dessa compreensão que nasceu meu trabalho.

Hoje, auxilio mulheres, famílias e bebês a atravessarem o início da vida com mais consciência, presença, autonomia e respeito. Não a partir do medo, mas da confiança no corpo, da escuta da intuição e da responsabilidade pelas próprias escolhas.

Minha história não é apenas sobre maternidade.

É sobre reconexão.
Sobre resgate.
Sobre coragem de ouvir a própria alma mesmo quando o caminho não é convencional.

Porque existe uma inteligência no corpo que lembra.
E quando aprendemos a escutá-la, a vida deixa de ser apenas sobrevivência e passa a ser presença.

Hoje compreendo que não trabalho a partir do sacrifício.
Trabalho a partir da coerência.

O que ofereço ao mundo é a continuidade viva daquilo que eu mesma precisei atravessar.

Para que mães e pais possam se reconhecer no processo.
Para que bebês sejam recebidos com dignidade e amor.
E para que o início da vida volte a ser tratado como algo sagrado.

E talvez o maior aprendizado de toda essa jornada seja simples:

Ninguém sabe o que é melhor para você além de você mesma.

Sabedoria, consciência e presença podem guiar o caminho.

O corpo sabe.
A vida sabe.
E quando existe escuta verdadeira, a intuição deixa de ser medo e se torna direção.

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